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As juventudes brasileiras e seus direitos: 12 de agosto – Dia Mundial da Juventude



Em dezembro de 1999, após uma recomendação feita na Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, que se realizou em agosto de 1998, em Lisboa, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 12 de agosto como o Dia Internacional da Juventude (também conhecido como Dia Mundial da Juventude), com o objetivo de mostrar a todos os países a necessidade de investimento nas juventudes. A ideia de criar um Dia Internacional da Juventude surgiu em 1991 por iniciativa de um grupo de jovens participantes da primeira sessão do Fórum Mundial da Juventude.

Torna-se importante destacar a terminologia: ao invés de se usar "juventude", por uma posição política, deve ser usado o termo "juventudes", no plural mesmo, considerando que a juventude pobre e trabalhadora é diferente da juventude com acesso a direitos que a primeira não tem; assim como a juventude negra, indígena e branca, que são tratadas de maneiras diferentes; a juventude masculina é tratada de maneira diferente da feminina; a juventade heteroafetiva é tratada de maneira distinta da homoafetiva. Esses são apenas alguns recortes que justificam o uso da terminologia "juventudes". Dentro do campo eclesial, também é possível fazer tal recorte, pois a juventude da Pastoral da Juventude (PJ) é tratada de maneira diferente da juventude dos movimentos eclesiais.

Nessa perspectiva de recorte das juventudes, é importante destacar as recentes manifestações que tomaram o Brasil no mês de junho passado e se questionar: quais juventudes foram às ruas? É importante fazer essa pergunta, não para deslegitimar as manifestações, que já entraram para a história, e o que é melhor, as juventudes foram protagonistas e escreveram essa página. Porém, é necessário fazer o recorte de qual juventude foi às ruas, principalmente considerando a perspectiva da grande mídia e da opinião pública, que afirmavam: “a juventude acordou!”, “o gigante acordou!”, dentre outras frases que se tornaram populares; para não se cometer uma injustiça, pois, ao contrário das frases que dizem que “a juventude acordou”, a juventude pobre, trabalhadora, da periferia “nunca dormiu”, e muito antes das manifestações, essa juventude, em particular a juventude negra, já sabia o que era a truculência e repressão policial. E o pior, sabia e sabe, não com balas de borracha, mas com balas de verdade.

Desconsiderar que a juventude da periferia há tempos “não dorme”, pois luta por direitos que lhe são negados há décadas, é desconsiderar o trabalho e a militância de grupos como o Movimento Hip-Hop, o Movimento do Passe-Livre, a Pastoral da Juventude, a qual encabeça uma campanha, já há alguns anos, contra a Violência e o Extermínio de Jovens, e muitos outros que buscam a garantia de direitos para as juventudes, principalmente as da periferia. Portanto, a juventude da periferia já vem buscando escrever sua história há muito tempo, enquanto a juventude que tem acesso a direitos “acordou” somente agora.

Além da “primavera brasileira”, merece destaque a sanção do Estatuto da Juventude, ocorrida no dia 5 de agosto, após 10 anos de tramitação no Congresso Nacional. Também é importante destacar que este ano se faz memória de 20 anos da Chacina da Candelária, a qual ceifou a vida de oito jovens.

No âmbito eclesial, o ano de 2013, no Brasil, está sendo considerado o ano da juventude, devido à realização da Campanha da Fraternidade (CF), cujo tema foi Fraternidade e Juventude, e também devido à realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Nessas duas atividades, é interessante se questionar a participação juvenil em seus processos de construção e realização, e também se questionar: quem são, de onde vêm e o que buscam os jovens que participaram tanto da CF quanto da JMJ? Esses espaços/momentos conseguiram ouvir, acolher e respeitar os anseios das diversas juventudes?

A resposta a essa segunda pergunta, infelizmente, é não. Isso é demonstrado pela pouca participação das juventudes nos processos de formulação de tais espaços. Na CF, muitos temas importantes para as juventudes foram pouco ou nada abordados. Tanto na CF quanto na JMJ, podemos afirmar, assim como diz Ivone Gebara, que “há outro rosto do cristianismo que quase não pode se manifestar na Jornada (e nem na CF). O cristianismo que ainda inspira a luta dos movimentos sociais por moradia, pela terra, pelos direitos LGBT, pelos direitos das mulheres, das crianças, dos idosos, etc. O cristianismo das comunidades de base (CEBs), das iniciativas inspiradas pela Teologia da Libertação e pela teologia feminista da libertação. Estes, embora presentes, foram quase sufocados pela força daquilo que a imprensa queria fortalecer e, por conseguinte, era de seu interesse. Isso tudo nos convida ao pensamento” [1].

A JMJ, no formato em que está, não é para e muito menos da juventude; ela é para e do Papa. Ela não deveria ser para, mas sim com e das juventudes; para isso, é necessário um formato diferente, em que se tenha a participação juvenil desde a organização até a realização. Mesmo que algumas coisas nos desanimem, devemos “esperar contra toda incerteza” e ter a esperança de que o Francisco de Roma nos surpreenda em sensibilidade, como o de Assis, “...homem das dores, [que] reconstrói a igreja pelo mundo afora, na fraternidade que traz a justiça, na revolução que anuncia a aurora”.

Para além da JMJ e dos espaços onde a igreja povo não tem vez, voz e lugar, há espaços eclesiais que alimentam nossa esperança, espaços estes onde a juventude é protagonista, como, por exemplo, o Dia Nacional da Juventude (DNJ), que é celebrado todos os anos no último domingo do mês de outubro, e o Grito dos Excluídos, realizado todos os anos no dia 7 de setembro e que, neste ano, terá como temática as juventudes.

O Papa Francisco, em um de seus discursos durante a visita ao Brasil, afirmou que “a nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço” [2]. Mais do que um dia da ou das juventudes, o que essa faixa da população mais precisa, não apenas no âmbito social, mas em todos os outros, inclusive eclesial, é ter espaço, é ter seus direitos garantidos, respeitados; ou seja, as juventudes, em especial as empobrecidas, precisam ter voz, vez e lugar onde possam ser protagonistas de sua própria história.

Notas:
[1] GEBARA, Ivone. Papa Francisco e a teologia da mulher: algumas inquietações – Disponível em:
http://cajueirocerrado.blogspot.com.br/2013/08/papa-francisco-e-teologia-da-mulher.html

[2] Discurso do Papa Francisco na Cerimônia de Boas-Vindas no Palácio da Guanabara – Disponível em:
http://www.cefep.org.br/documentos/discursos-e-homilias-do-papa-francisco-no-brasil-por-ocasiao-da-jmj.-2013/view

Página Dia Internacional da Juventude 2013 – IPDJ – Disponível em:
https://www.facebook.com/DiaInternacionalDaJuventude2013Ipdj

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