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AS PARAGUAIAS VALIAM MAIS (Leiam o conto de Mano Zeu)



Elas eram conhecidas como bolitas, burquinhas ou bolinhas de gude. Tinha as leiteiras, que eram todas brancas, cor de leite e que valia duas bolitas cada uma. Geralmente eram usadas como pontos e só em último caso eram caseadas no jogo. Tinha umas grandonas que davam o dobro de tamanho das normais e que os moleques mais malandros usavam elas para acertar mais fácil nas outras bolitas.

Nessa época era comum começarmos o domingo cedo lavando nossas bolitas para depois sujá-las novamente nas vielas de terra empoeirada do Jd. Paraná. A Viela C, da favela, era como se fosse o nosso playground. Era ali que se jogava futebol, andava de perna de pau, carrinho de rolimã e também se brincava de bandeirinha – uma espécie de futebol americano da favela. Na época do dia das bruxas a gente fazia caveiras com mamão verde e colocava pela viela com uma vela dentro. Foi ali que muitos de nós levamos os primeiros sustos e também demos os primeiros beijos na boca, brincando de esconde-esconde nas noites escuras. 

Pra galerinha daquela época, muitas vezes as bolitas eram uma forma de ter popularidade na quebrada, quem era bom no jogo tinha grande influência no dia a dia e sempre estava rodeado de amigxs e possíveis namoradxs. Eu e meu primo Deá usamos de uma estratégia de juntar nossas bolitas e cada um de nós ficava um dia com elas, desfilando com o pote cheio pela quebrada, assim como a galera da ostentação de hoje que posta fotos na internet com notas de cem. 

Outra parada muito comum era a famosa ‘cachada’. Quando alguém era rapelado e ficava sem nenhuma bolita, ficava ali rodeando o jogo e na primeira oportunidade, pegava as bolitas e saia correndo gritando cachada, com uma multidão atrás tentando alcançá-lo. Depois aparecia em outro canto da favela em outros jogos, com as bolitas roubadas, como se tivesse fugido do flagrante e respondendo em liberdade. 

Três tipos de jogos de bolitas eram os mais populares, ‘Paredão, Cabecinha e Cinco Búlicos’. 

A cabecinha era desenhada no chão, um círculo (cabeça) e uma linha reta (rabo) e as bolitas eram colocadas sobre esse desenho. A uns vinte passos dali se fazia uma linha e detrás dessa linha as pessoinhas tinham que tentar acertá-las. Quem acertasse na cabecinha levava todas as bolitas caseadas. Os cinco búlicos são cinco buracos feitos no chão onde o jogador tem que acertar os cinco búlicos e depois acertar na bolita do outro, que assim é eliminado. O último a ficar no jogo é o vencedor. Nessa modalidade é que se criou boa parte da linguagem e gírias usadas no jogo. A palavra ‘acertar’ era substituída por ‘tingar’. Uma jogada irregular como mover a mão na hora da jogada era chamada de ‘esporcegão’ e o jogador perdia a vez. ‘Nada mantes’ era a palavra usada para se proteger de uma jogada muito usual em que o adversário tinga na bolita do outro jogando pra longe dos bulicos e dificultando assim as suas jogadas. Outra gíria era uma forma de bullyng (zoação da época), pra identificar uma pessoa que não sabia usar o dedo polegar pra jogar e espremia a bolita que saía sem força. Essa jogada era chamada de ‘cuzinho de galinha’, uma espécie de perna de pau do futebol. O Paredão consistia em uma parede em que cada um jogava a bolita na parede e na volta ela tinha que acertar em alguma que estava pelo chão. Era comum juntar umas 50 bolitas até alguém acertar em alguma e levar sozinho toda essa bolada. Essa modalidade também era a predileta da galera que batia cachada. 

É incrível como aquelas bolinhas tão minúsculas gerava uma felicidade tão grande. 

Tinha um moleque que tinha o apelido de Big Bosta e que foi muito importante na nossa vida nessa época, por dois motivos. Era ruim de bolita e sua mãe era dona da panificadora do bairro. Então a gente trocava com ele as nossas bolitas por pedaços de bolo, pudim e iogurtes. Graças a isso nossa infância foi mais doce. Muito tempo depois esse moleque passou no concurso da PM e virou um policial corrupto, amargando a vida de muitas famílias das favelas de Foz. 

A Viela C era o lugar mais cobiçado da quebrada. Inclusive uma molecada do asfalto, que morava no Jd. Petrópolis descia a favela pra jogar bolita na terra. O colégio ficava no ‘Petropão’ e muitos de nós do Jd. Paraná que estudava lá, ganhava o apelido de pé-sujo. Foi ali que eu consegui meu primeiro vídeo-game, troquei com um moleque do asfalto por 400 bolitas. É lógico que no meio tinha um monte de leiteira e bolitas coloridas, dessas que valem duas. E também várias bolitas paraguaias, as famosas ‘paraguaínhas’, as mais desejadas. 

As paraguaias eram as que valiam mais, de acordo com a quantidade de listras. 

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